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Você sempre diz que sabe lidar muito bem com seus medos e problemas, e, por ironia, são eles que te engolem todos os dias. Não deixe de ler nossos textos. Esperamos que se identifique.

VOCÊ NÃO É A MÃE DELE!

Você acha que pode mudá-lo. Você acha que pode ignorar os seus problemas pra assumir os dele, e sair ilesa. A barragem dele estoura, e você está lá. Ele se fere, e você, band-aid, está lá. Ele grita à noite, e você o ouve. Ele se perde no pânico do seu próprio dia-a-dia, e você, que não lida nem com o seu, ajuda-o a voltar à estrada. Ele rala o joelho por correr exaustivamente em busca do que quer da vida, e você usa os últimos medicamentos da sua maleta de pronto-socorro para tratar da ferida dele. E você, fica sem. Os diabos dele o vencem e você trava a batalha por ele. 


            É sempre você. 


            Mas você não é a mãe dele, entende? Arranque esse instinto protetor de dentro de você. Não é saudável! Ainda que fosse recíproco, ainda que ele valorizasse cada ato heroico seu. Nada vale o seu desgaste emocional, físico e psicológico. Nada vale essa ansiedade que se instaurou em você, por culpa dele — em uma noite, você exerce o seu cargo de tapa-buraco; ponto batido, horário cumprido. A dor dele é tanta, que vaza e você, intuitiva, percebe que há algo de errado com ele. Ele desabafa com você, quando você que queria desabafar com alguém. Sua dor é suprimida, você a invalida. Ele é mais importante, agora. Você trata de cada ferida dele, com o toque e cuidado de uma mãe. Ouve o quão frenético e problemático foi o dia dele; que ele brigou com a mãe e não sabe o que fazer; que ele está atolado de trabalho atrasado da faculdade e não sabe como pôr em dia; que ele anda perdendo o horário das coisas e isso tá o irritando.

            São problemas tão vagos e vaidosos, você pensa. Nem se compara aos seus.

            Mas você se sensibiliza, você encoraja, você acalenta, você, principalmente, ouve. O sono dele aparece, ele se despede, tão grato. Te enche de “obrigados” sinceros, te deseja “boa noite” e seu coração, complacente, se enche de esperança. Você fez o que devia fazer, você pensa... Mas no outro dia, ele te trata como se você não tivesse feito nada ontem. Ele revoga o momento que vocês dois tiveram na noite anterior. Você voltou a ser só mais uma, quando você entregou a ele tudo que tinha.

            À noite, quando você deita na cama, os teus flagelos te consumem e seus olhos estouram de lágrimas, tão pesadas e fulminantes, que não se sustentam nas pálpebras. Seu corpo dói e vem o inferno. Você abra a boca, sem poder respirar. Quer alguém pra conversar, pra te abraçar e espantar o fogo que te consome, afugentar as tuas bestas, mas não há ninguém. Ele dormiu, mas... ainda que ele estivesse acordado, ele não te ouviria... ouviria? Você sabe que não! E se ouvir, por reconhecimento ao que você fez, não será com o mesmo comprometimento, porque ele não se importa, entende?

            Dói ler isso, não é?

            Dói saber que ele não se importa! Ele não faria metade do que você faz por ele, e o mais trágico nisso tudo, é que você tem consciência disso. Não, eu não te julgo. O teu instinto protetor de mãe impera, é mais forte, porque você o ama. Você o ama, ainda que odeie isso. Você odeia o que se tornou por ele: esse maldito estereótipo.

            O que eu quero falar aqui, é que você precisa parar de se auto-anular pelos outros. Ninguém vale o teu prejuízo mental. Não importa se é o teu namorado, teu irmão, teu amigo, teu marido... não importa qual seja a pessoa ou qual cargo sentimental ela exerça na sua vida. Nada, nem ninguém, vale o teu pódio. Você vale o seu pódio. Se todo o tempo em que você perdeu se comprometendo com ele, tivesse tirado para benefício próprio, o quão superabundante você seria? A verdade é que você não faria por si mesma metade do que fez por ele.



            Isso é tenebroso. Você devia ter vergonha — não pelo que você fez a ele, mas pelo que deixou de fazer a você. Orgulhe-se, sim, por ser essa mulher incrível que transborda amor, independente do estado em que esteja e da bagunça que te cubra. Orgulhe-se por nunca ter entregado a ele ódio, ainda que isso fosse o que você quisesse dar. Mas não se orgulhe pela sua negligência. Não se vanglorie, porque não há valor no ato de se rebaixar para elevar os outros. Não há honraria em se diminuir. 

~
            Se desprender dele vai doer. Deixar de se importar, não será fácil. Mas você precisa, por você. Permita que essa desistência te afete uma ou duas semanas, ou até meses, mas não deixe que isso te destrua por uma vida inteira. É melhor sentir uma única dor por estar desistindo dele, do que sentir várias dores de desgostos consecutivos. Uma hora essa abstinência dele vai passar. Comece com testes pequenos, um passo de cada vez: só por essa semana, não queira mais vê-lo, nem falar com ele. Só por essa semana, não tome a dose dele.

            Você vai ficar preocupada que ele te esqueça por vocês passarem tanto tempo sem se falar, mas lembre-se que ele não te procuraria, ainda assim. Porque você estanca as feridas dele, sim, mas existem outras que fazem o mesmo que você. E não, você não vai conseguir ser amiga dele. Não dá. Será como conviver com a heroína, uma luta contra o vício. Quanto mais você estiver com ele, mais ele terá domínio sobre você. Mais será difícil arrancá-lo. Se for mais fácil pra você, bloqueie ele das redes sociais — não será infantilidade, é pra sua saúde mental. Ele é ótimo em te fazer se sentir pequena.

            Você vai conseguir se livrar, com o tempo. E aí, tudo vai voltar a ser seu e você será feliz. Porque você não precisa de alguém que te ame agora. Você precisa se amar. Porque se ele sente algo por você, não é amor... é só gratidão. Você só era “necessária” pra ele.

            Assim como tantas outras são.

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